sábado, 8 de junho de 2013

Por quem os sinos dobram


[Combatentes rebeldes do "Exército Livre da Síria", em Aleppo].
[Khalil Hamra, Associated Press].

A denominada "Primavera Árabe" (2011-2013) tende a redundar numa ilusão de "wishful thinking" ocidental, como os observadores mais cépticos alertaram desde o primeiro momento de insurreição. Na origem de tal ilusão, entre outros erros de análise, destaca-se a teorização de uma analogia histórica com a queda do Muro de Berlim em 1989, rumo a uma mirífica "quarta vaga" de democratização [1]. Cerca de dois anos e meio após a morte de Mohamed Bouazizi - o vendedor de fruta tunisino que se imolou pelo fogo [2], em Dezembro de 2010, aos 26 anos de idade, em protesto contra o regime de Ben Ali, subsequentemente derrubado -, confirma-se a queda de vários muros autocráticos no Magrebe e no Médio Oriente, mas adensam-se as dúvidas em torno de putativas transições para regimes democráticos. Ora, do lado oposto desses muros (na Tunísia, Líbia ou Egipto), em vez do magnetismo dos néones de Berlim Ocidental ou da perspectiva de adesão à União Europeia e à NATO, os "revolucionários" magrebinos e árabes depararam com uma outra força de bloqueio: a islamização do poder político. Ou seja, a perseverança do excepcionalismo árabe resultante da não separação dos poderes.

A céptica Anne Applebaum, por exemplo, apontou desde logo para as revoluções europeias de 1848 enquanto melhor base de comparação do que as de 1989. «The street revolutions that ended communism followed similar patterns because they followed in the wake of a single political event: the abrupt withdrawal of Soviet support for the local dictator. The Arab revolutions, by contrast, are the product of multiple changes - economic, technological, demographic - and have taken on a distinctly flavor and meaning in each country. In that sense, they resemble 1848 far more than 1989» [3]. A perspectiva de Applebaum parece ganhar consistência com o desenrolar dos acontecimentos, excepto no caso da Síria, o cenário mais intrigante e catastrófico. No feudo de Bashar al-Assad, a "Primavera de Damasco" degenerou numa sangrenta guerra civil que ameaça desestabilizar os frágeis equilíbrios geopolíticos da região envolvente. «Não se trata de uma guerra civil clássica. 'O que começou por ser uma revolta contra um regime opressivo evoluiu para uma guerra sectária' e para um conflito regional 'por procuração' - a luta entre potências sunitas e xiitas pela proeminência na região» [4].

A Síria debate-se com uma espécie de "Guerra Fria" cristalizada. O regime de al-Assad conta com o apoio diplomático da Rússia, tal como os "ditadores locais" da Europa de Leste pré-1989 eram sustentados pela União Soviética (e se a "Primavera de Praga", 1968-69, foi esmagada pelos tanques soviéticos, a "Primavera de Damasco" poderá ter um desfecho similar, através do fornecimento do sistema de defesa anti-aérea S-300 por parte de Moscovo). Ao nível regional, o maior aliado de al-Assad é o Irão (e o Hezbollah, peão do regime iraniano no Líbano e no conflito israelo-palestiniano), no contexto de uma disputa geopolítica entre dois blocos: os xiitas e os sunitas. O Irão lidera o bloco xiita e não aceita que a Síria, cuja população é maioritariamente sunita (o regime de al-Assad baseia-se na supremacia de uma minoria alauita, ramificação xiita), transite para a esfera de influência sunita.
 
A rebelião síria é apoiada pela Arábia Saudita e pelo Qatar, potências sunitas. «A Arábia Saudita, país da 'linha da frente' no combate ao Irão, e o Qatar, que graças ao dinheiro quer passar de 'influente' a 'poderoso', cedo incentivaram o 'jihadismo'. Os turcos tentaram a mediação, mas, perante as provocações sírias, passaram a apoiar os rebeldes sunitas - não os 'jihadistas'» [5]. Os E.U.A. exigem a demissão de al-Assad mas não confiam nos rebeldes, devido à componente "jihadista" de alguns grupos, hesitam no fornecimento de equipamento militar. Aliás, por mais que a "linha vermelha" da utilização de armas químicas seja transposta, muito dificilmente se assistirá a uma intervenção directa dos norte-americanos, remetidos à condição de "superpotência frugal" [6]. O maior perigo consiste na potencial desestabilização regional, sobretudo o envolvimento de Israel. A questão curda e os milhões de refugiados sírios também fazem parte da equação, tal como o aparente cisma entre o Hezbollah e o Hamas - «Hezbollah suspects Hamas has been teaching the Sunni rebels in Syria how to fight», relata Robert Fisk. Em conjunto, um problema muito complexo e sem resolução à vista.



[1] Samuel P. Huntington, "The Third Wave: Democratization in the Late 20th Century"
(University of Oklahoma Press, 1993).

A "terceira vaga" de democratização, na perspectiva de Samuel P. Huntington, eclodiu em Lisboa, com a "Revolução dos Cravos" de 1974. «The third wave of democratization in the modern world began, implausibly and unwittingly, at twenty-five minutes after midnight, Thursday, April 25, 1974, in Lisbon, Portugal, when a radio station played the song 'Grandola Vila Morena'.» Além da Europa Ocidental (Portugal, Espanha e Grécia), abrangeu as transições democráticas na América Latina, ao longo da década de 1980, e na Europa de Leste, após a queda do Muro de Berlim (1989) e a dissolução da União Soviética (1990).

[2] Jan Palach, estudante checoslovaco, também se imolou pelo fogo, em Janeiro de 1969, aos 20 anos de idade, na Praça Wenceslas, Praga, em frente ao Museu Nacional. Foi um acto de protesto contra a repressão soviética da "Primavera de Praga" (1968-69), mimetizado em Fevereiro de 1969 por outro estudante checoslovaco, Jan Zajíc, aos 18 anos de idade, na mesma Praça Wenceslas onde hoje se encontra um memorial em homenagem aos dois mártires, Palach e Zajíc. No entanto, a Checoslováquia permaneceu sob o jugo soviético durante mais 20 anos, até à queda do Muro de Berlim em 1989, ao passo que o regime de Ben Ali, na Tunísia, não tardou a ser derrubado, em Janeiro de 2011, cerca de 10 dias após a confirmação da morte de Mohamed Bouazizi.

[3] Anne Applebaum, "In the Arab World, it's 1848 - not 1989"
("The Washington Post", edição 21 de Fevereiro 2011).

«Though inspired very generally by the ideas of liberal nationalism and democracy, the mostly middle-class demonstrators of 1848 had, like their Arab contemporaries, diferente goals in different countries. In Hungary, they demanded independence from Austria's Habsburg rulers. In what is now Germany, they aimed to unify the German-speaking peoples into a single state. In France, they wanted to overthrow the monarchy (again). In some countries, revolution led to pitched battles between ethnic groups. Others were brought to a halt by outside intervention.

Most of the 1848 rebellions failed. The Hungarians did kick the Austrians out, but only briefly. Germany failed to unite. The French created a republic that collapsed a few years later. Constitutions were written and discarded. Monarchs were toppled and restored. The historian A.J.P. Taylor called 1848 a moment when 'history reached a turning point and failed to turn'.

And yet in the longer run, the ideas discussed in 1848 did seep into the culture, and some of the revolutionary plans were eventually realized. By the end of the 19th century, Chancellor Bismarck had indeed united Germany, and France established its Third Republic. The nations once ruled by the Habsburgs did gain independence after the First World War. In 1849, many of the revolutions of 1848 might have seemed disastrous, but looking back from 1899 or 1919, they seemed like the beginning of a successful change.»

[4] Jorge Almeida Fernandes, "Tragédia Síria: T.E. Lawrence tinha razão"
("Público", edição 19 de Maio 2013).

[5] Idem, ibidem.

[6] Michael Mandelbaum, "The Frugal Superpower: America's Global Leadership in a Cash-Strapped Era"
(PublicAffairs, 2010).

«When Barack Obama was elected in 2008 he and his supporters expected that his presidency would transform the United States. […] Because they will have to spend so much more than it has in the past on obligations at home […] it will be able to spend less than in the past on foreign policy. Because it will be able to spend less, it will be able to do less. Just what the United States will and will not do will be the most important issue in international relations in the years ahead.»

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