sábado, 8 de junho de 2013

Por quem os sinos dobram


[Combatentes rebeldes do "Exército Livre da Síria", em Aleppo].
[Khalil Hamra, Associated Press].

A denominada "Primavera Árabe" (2011-2013) tende a redundar numa ilusão de "wishful thinking" ocidental, como os observadores mais cépticos alertaram desde o primeiro momento de insurreição. Na origem de tal ilusão, entre outros erros de análise, destaca-se a teorização de uma analogia histórica com a queda do Muro de Berlim em 1989, rumo a uma mirífica "quarta vaga" de democratização [1]. Cerca de dois anos e meio após a morte de Mohamed Bouazizi - o vendedor de fruta tunisino que se imolou pelo fogo [2], em Dezembro de 2010, aos 26 anos de idade, em protesto contra o regime de Ben Ali, subsequentemente derrubado -, confirma-se a queda de vários muros autocráticos no Magrebe e no Médio Oriente, mas adensam-se as dúvidas em torno de putativas transições para regimes democráticos. Ora, do lado oposto desses muros (na Tunísia, Líbia ou Egipto), em vez do magnetismo dos néones de Berlim Ocidental ou da perspectiva de adesão à União Europeia e à NATO, os "revolucionários" magrebinos e árabes depararam com uma outra força de bloqueio: a islamização do poder político. Ou seja, a perseverança do excepcionalismo árabe resultante da não separação dos poderes.

A céptica Anne Applebaum, por exemplo, apontou desde logo para as revoluções europeias de 1848 enquanto melhor base de comparação do que as de 1989. «The street revolutions that ended communism followed similar patterns because they followed in the wake of a single political event: the abrupt withdrawal of Soviet support for the local dictator. The Arab revolutions, by contrast, are the product of multiple changes - economic, technological, demographic - and have taken on a distinctly flavor and meaning in each country. In that sense, they resemble 1848 far more than 1989» [3]. A perspectiva de Applebaum parece ganhar consistência com o desenrolar dos acontecimentos, excepto no caso da Síria, o cenário mais intrigante e catastrófico. No feudo de Bashar al-Assad, a "Primavera de Damasco" degenerou numa sangrenta guerra civil que ameaça desestabilizar os frágeis equilíbrios geopolíticos da região envolvente. «Não se trata de uma guerra civil clássica. 'O que começou por ser uma revolta contra um regime opressivo evoluiu para uma guerra sectária' e para um conflito regional 'por procuração' - a luta entre potências sunitas e xiitas pela proeminência na região» [4].

A Síria debate-se com uma espécie de "Guerra Fria" cristalizada. O regime de al-Assad conta com o apoio diplomático da Rússia, tal como os "ditadores locais" da Europa de Leste pré-1989 eram sustentados pela União Soviética (e se a "Primavera de Praga", 1968-69, foi esmagada pelos tanques soviéticos, a "Primavera de Damasco" poderá ter um desfecho similar, através do fornecimento do sistema de defesa anti-aérea S-300 por parte de Moscovo). Ao nível regional, o maior aliado de al-Assad é o Irão (e o Hezbollah, peão do regime iraniano no Líbano e no conflito israelo-palestiniano), no contexto de uma disputa geopolítica entre dois blocos: os xiitas e os sunitas. O Irão lidera o bloco xiita e não aceita que a Síria, cuja população é maioritariamente sunita (o regime de al-Assad baseia-se na supremacia de uma minoria alauita, ramificação xiita), transite para a esfera de influência sunita.
 
A rebelião síria é apoiada pela Arábia Saudita e pelo Qatar, potências sunitas. «A Arábia Saudita, país da 'linha da frente' no combate ao Irão, e o Qatar, que graças ao dinheiro quer passar de 'influente' a 'poderoso', cedo incentivaram o 'jihadismo'. Os turcos tentaram a mediação, mas, perante as provocações sírias, passaram a apoiar os rebeldes sunitas - não os 'jihadistas'» [5]. Os E.U.A. exigem a demissão de al-Assad mas não confiam nos rebeldes, devido à componente "jihadista" de alguns grupos, hesitam no fornecimento de equipamento militar. Aliás, por mais que a "linha vermelha" da utilização de armas químicas seja transposta, muito dificilmente se assistirá a uma intervenção directa dos norte-americanos, remetidos à condição de "superpotência frugal" [6]. O maior perigo consiste na potencial desestabilização regional, sobretudo o envolvimento de Israel. A questão curda e os milhões de refugiados sírios também fazem parte da equação, tal como o aparente cisma entre o Hezbollah e o Hamas - «Hezbollah suspects Hamas has been teaching the Sunni rebels in Syria how to fight», relata Robert Fisk. Em conjunto, um problema muito complexo e sem resolução à vista.



[1] Samuel P. Huntington, "The Third Wave: Democratization in the Late 20th Century"
(University of Oklahoma Press, 1993).

A "terceira vaga" de democratização, na perspectiva de Samuel P. Huntington, eclodiu em Lisboa, com a "Revolução dos Cravos" de 1974. «The third wave of democratization in the modern world began, implausibly and unwittingly, at twenty-five minutes after midnight, Thursday, April 25, 1974, in Lisbon, Portugal, when a radio station played the song 'Grandola Vila Morena'.» Além da Europa Ocidental (Portugal, Espanha e Grécia), abrangeu as transições democráticas na América Latina, ao longo da década de 1980, e na Europa de Leste, após a queda do Muro de Berlim (1989) e a dissolução da União Soviética (1990).

[2] Jan Palach, estudante checoslovaco, também se imolou pelo fogo, em Janeiro de 1969, aos 20 anos de idade, na Praça Wenceslas, Praga, em frente ao Museu Nacional. Foi um acto de protesto contra a repressão soviética da "Primavera de Praga" (1968-69), mimetizado em Fevereiro de 1969 por outro estudante checoslovaco, Jan Zajíc, aos 18 anos de idade, na mesma Praça Wenceslas onde hoje se encontra um memorial em homenagem aos dois mártires, Palach e Zajíc. No entanto, a Checoslováquia permaneceu sob o jugo soviético durante mais 20 anos, até à queda do Muro de Berlim em 1989, ao passo que o regime de Ben Ali, na Tunísia, não tardou a ser derrubado, em Janeiro de 2011, cerca de 10 dias após a confirmação da morte de Mohamed Bouazizi.

[3] Anne Applebaum, "In the Arab World, it's 1848 - not 1989"
("The Washington Post", edição 21 de Fevereiro 2011).

«Though inspired very generally by the ideas of liberal nationalism and democracy, the mostly middle-class demonstrators of 1848 had, like their Arab contemporaries, diferente goals in different countries. In Hungary, they demanded independence from Austria's Habsburg rulers. In what is now Germany, they aimed to unify the German-speaking peoples into a single state. In France, they wanted to overthrow the monarchy (again). In some countries, revolution led to pitched battles between ethnic groups. Others were brought to a halt by outside intervention.

Most of the 1848 rebellions failed. The Hungarians did kick the Austrians out, but only briefly. Germany failed to unite. The French created a republic that collapsed a few years later. Constitutions were written and discarded. Monarchs were toppled and restored. The historian A.J.P. Taylor called 1848 a moment when 'history reached a turning point and failed to turn'.

And yet in the longer run, the ideas discussed in 1848 did seep into the culture, and some of the revolutionary plans were eventually realized. By the end of the 19th century, Chancellor Bismarck had indeed united Germany, and France established its Third Republic. The nations once ruled by the Habsburgs did gain independence after the First World War. In 1849, many of the revolutions of 1848 might have seemed disastrous, but looking back from 1899 or 1919, they seemed like the beginning of a successful change.»

[4] Jorge Almeida Fernandes, "Tragédia Síria: T.E. Lawrence tinha razão"
("Público", edição 19 de Maio 2013).

[5] Idem, ibidem.

[6] Michael Mandelbaum, "The Frugal Superpower: America's Global Leadership in a Cash-Strapped Era"
(PublicAffairs, 2010).

«When Barack Obama was elected in 2008 he and his supporters expected that his presidency would transform the United States. […] Because they will have to spend so much more than it has in the past on obligations at home […] it will be able to spend less than in the past on foreign policy. Because it will be able to spend less, it will be able to do less. Just what the United States will and will not do will be the most important issue in international relations in the years ahead.»

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Manual de analogias históricas



A analogia histórica é uma ilusão perigosa - «Looking for meaning in History is like looking for patterns in clouds... We cannot be rid of illusions. Illusion is our natural condition.» [1] -, mas, se for utilizada com precaução, enquadrada numa perspectiva realista, poderá vir a ser útil no processo de análise e compreensão de acontecimentos contemporâneos. Quando é mal utilizada, tal como no Iraque de 2003 (no pós-guerra traçou-se um paralelismo com a reconstrução da Alemanha pós-nazismo que redundou na "desbaasificação" da administração central e no desmantelamento do Exército iraquiano, entre outros erros estratégicos que alimentaram a insurreição), o resultado poderá revelar-se catastrófico.
 
Para além das analogias mal utilizadas, abundam as analogias superficiais que serão sempre nocivas, na justa medida em que se baseiam em premissas erróneas. «É necessário […] ter cuidado com analogias históricas manifestamente superficiais. Durante a Guerra Fria, era frequentemente popular afirmar que, porque os E.U.A. eram uma democracia e uma potência baseada no mar enquanto que a U.R.S.S. era uma potência baseada na terra e um Estado de escravos, a América era Atenas e a União Soviética era Esparta, forçados a reinterpretarem um grande conflito histórico. Mas tais analogias superficiais não tinham em consideração o facto de a antiga Atenas ser um Estado esclavagista, destroçado pela desordem interna e de os democratas não terem estado sempre no poder. Além do mais, ao contrário do que aconteceu na Guerra Fria, Esparta ganhou.» [2] A Guerra Fria, aliás, destaca-se na origem de muitas dessas analogias falhadas.
 
No jornal "The Washington Post", David Ignatius propõe uma analogia histórica com potencial para ser bem utilizada. Começa por fazer referência a "Eisenhower 1956: The President's Year of Crisis - Suez and the Brink of War" (Simon & Schuster, 2011), o livro de David A. Nichols que terá sido oferecido pelo novo Secretário da Defesa dos E.U.A., Chuck Hagel, ao Presidente Barack Obama, ao Vice-Presidente Joe Biden e ao ex-Secretário da Defesa Robert Gates. Seguidamente ensaia um paralelismo entre a Crise do Suez (1956) e um dos mais prementes desafios contemporâneos: o programa nuclear do Irão. A peça-chave da analogia consiste em Israel. «Just as Egypt's mercurial leader Gamal Abdel Nasser posed the preeminent threat to Israel in the 1950s, so it is today with Iran's Ayatollah Ali Khamenei.» [3]
 
Ignatius utiliza a analogia com precaução - «The parallells are impossible to draw precisely, but it matters that the cautious and fiercely independent Eisenhower is a role model for the prospective future Defense Secretary.» [3] -, não no sentido de uma replicação histórica, mas procurando antecipar o rumo estratégico do segundo mandato presidencial de Obama. Terá o livro de Nichols, aconselhado por Hagel, influência no pensamento estratégico de Obama? Ora, como prevenir que o Irão obtenha armas nucleares sem recorrer à acção militar? Como suster o ímpeto belicista de Israel? Em suma, na senda de Eisenhower, como preservar um "equilíbrio de poder" no Médio Oriente que seja favorável aos interesses dos E.U.A.?

[Capitólio dos E.U.A., Washington D.C.].
 
No discurso sobre o "Estado da União" (12 de Fevereiro de 2013), apesar do tom assertivo de Obama, não há sinais de mudança estratégica. «The leaders of Iran must recognize that now is the time for a diplomatic solution, because a coalition stands united in demanding that they meet their obligations. And we will do what is necessary to prevent them from getting a nuclear weapon.» A questão iraniana, porém, continua a encimar a agenda da política externa norte-americana (a par do Afeganistão, Al-Qaeda e islamismo radical, Coreia do Norte, entre outros desafios). E é provável que assim se mantenha ao longo do segundo mandato de Obama, talvez até ao momento em que uma altercação da amplitude da Crise do Suez (a iminência de uma intervenção israelita ou a radicalização da posição iraniana) obrigue a uma tomada de posição por parte dos E.U.A. Sintomaticamente, "Hollywood" prepara-se para premiar o filme "Argo" (2012), de Ben Affleck, exercício de redenção dos fantasmas norte-americanos no Irão dos "Ayatollahs". Obama parece pendular entre um republicano e um democrata, entre a "Doutrina Eisenhower" e a hesitação de Jimmy Carter.


[1] John Gray, "Straw Dogs: Thoughts on Humans and Other Animals"
(Farrar, Straus & Giroux, 2007).
 
[2] Joseph S. Nye, “Understanding International Conflicts: An Introduction to Theory and History”
(Longman, 2000).
 
[3] David Ignatius, "What the Suez crisis can remind us about U.S. power"
(in "The Washington Post", 26 de Janeiro de 2013).

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Mais estranho do que a ficção


[Slavoj Žižek no seu apartamento em Ljubljana, Eslovénia, 2010].

A essência do totalitarismo comporta uma dose excessiva de realidade - a dimensão hobbesiana da natureza humana - que urge diluir num caldo ficcional. Os regimes comunistas, sintomaticamente, não perduram sem recorrer ao artefacto da ficção, daí a necessidade de controlar os meios de comunicação social (censura, manipulação, propaganda) e restringir a liberdade de expressão (vigilância, delação, repressão). Em suma, opressão, desde logo ao nível da narrativa - a tirania baseia-se na imposição de uma narrativa oficial que não pode ser questionada, nunca, nem quando se revela contraditória («Guerra é Paz; Liberdade é Escravidão; Ignorância é Força», ou a epítome do "duplo-pensar" inerente à "novilíngua" orwelliana).
 
Slavoj Žižek, pós-comunista assumido, aponta para uma necessidade ontológica de ficção. «We humans are not naturally born into reality», diagnostica em "The Pervert's Guide to Cinema" (Sophie Fiennes, 2006). Na perspectiva de Žižek, a sociedade enquadra a realidade em bruto numa "ordem simbólica" (uma entre três ordens, a par da "ordem imaginária" e da "ordem do real", que se inscrevem na dinâmica do mecanismo mental, segundo a teorização de Jacques Lacan, referência primordial para Žižek) embebida em elementos ficcionais que tornam a vida mais suportável, apesar do abismo niilista do "nada", ausência de sentido, vazio existencial. Ao ponto de considerar até que as maiores obras de ficção do cinema e da literatura serão mais reais do que a própria realidade. «Our fundamental delusion today is not to believe in what is only a fiction, to take fictions too seriously. It's, on the contrary, not to take fictions seriously enough. You think it's just a game? It's reality», assegura. Ora, o desconstrutivismo de Žižek resulta num denso labirinto de paradoxos que parece legitimar o caldo ficcional (projectado em "novilíngua") dos regimes totalitários.


 
O massacre de Katyń (1940), por exemplo, na medida em que poderia constituir uma sobredose massiva de realidade para os cidadãos da U.R.S.S. (e das democracias ocidentais), foi camuflado durante várias décadas por uma neblina ficcional: um crime estalinista imputado à Alemanha nazista (então o bode expiatório mais politicamente correcto). Os corpos de oficiais e soldados polacos desenterrados de valas comuns revestiram assim a forma de meros figurantes cinematográficos, espectros da "ordem simbólica".
 
Mas nem toda a filmografia de produção comunista remete para o género dramático. Aliás, o género mais recorrente talvez seja a tragicomédia, como na Venezuela contemporânea de Hugo Chávez. Pois ao quarto mandato consecutivo (há 14 anos no poder), o líder da "revolução bolivariana" delegou a tomada de posse nessa entidade abstracta que dá pelo nome de "povo". Alegadamente em Cuba a receber tratamento a um cancro reincidente (noticia-se que "em coma induzido", mas decerto que se trata de mais uma conspiração montada pela CIA, outra reconhecida produtora de cinema), o omnipresente Chávez faz-se representar na cadeira do poder em Caracas pela "sombra do guerreiro" (como no filme de Akira Kurosawa). Fosse Israel um regime comunista e Ariel Sharon, em coma desde 2006, ainda seria o primeiro-ministro.

sábado, 17 de novembro de 2012

Armas de dissimulação maciça



«After being married for over 37 years, I showed extremely poor judgment by engaging in an extramarital affair», admitiu o general norte-americano David Petraeus, justificando a subsequente demissão do cargo de director da CIA. Por entre a histeria mediática que se gerou em torno deste suculento caso de adultério, repleto de intrigas palacianas, segredos militares e pecadilhos morais, entretanto, passou quase despercebida uma revelação que, na minha perspectiva, é bastante mais importante: ontem, no âmbito de uma audiência no Congresso sobre o ataque, no dia 11 de Setembro, ao consulado norte-americano em Benghazi, na Líbia, o general Petraeus testemunhou que a CIA terá considerado, desde o início, que se tratara de um atentado terrorista perpetrado por um grupo ligado à Al-Qaeda. Nos dias que se seguiram ao atentado (que resultou na morte de quatro norte-americanos, entre os quais o embaixador Christopher Stevens), a Administração liderada por Barack Obama, contudo, optou por fazer passar uma versão errónea, interpretando o sucedido como um protesto popular, instigado pelo célebre "filme viral" que ridiculariza o Islão. Ou seja, uma versão mais consentânea com os interesses pré-eleitorais de um presidente a bater-se pela reeleição, na medida em que um novo atentado da Al-Qaeda prejudicaria a narrativa de "vitória" - construída a partir da operação de liquidação de Osama Bin Laden em Abbottabad, no Paquistão, trunfo eleitoral. Por causa de algo tão grave quanto isto, José María Aznar terá sido derrotado nas eleições gerais espanholas de 2004, escassos dias após ter tentado atribuir à ETA a autoria dos atentados terroristas da Al-Qaeda em Madrid. Mas Obama é como que uma instituição moral, o Prémio Nobel da Paz (preventivo), ou "Drone Warrior" (pedindo emprestada esta terminologia a Charles Krauthammer, que alertou, em tempo útil, para a dissimulação do atentado de Benghazi), especialista em exercer a "realpolitik" na obscuridade, mestre do "spin" à Barry Levinson.

«Why does a dog wag its tail?
Because a dog is smarter than its tail.
If the tail was smarter, the tail would wag the dog

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O caminho para a servidão


[Liu Shusong, Xinhua Press].

Nas páginas do jornal "Público", edição de 11 de Novembro, a reportagem de Paulo Moura incidindo sobre os catastróficos impactos ambientais, geológicos e sociais da construção da Barragem das Três Gargantas, na República Popular da China, traça um retrato (pungente) de desumanidade característica dos regimes totalitários. Sem ilusões quanto a conceitos de duplicidade orwelliana como "ditadura suave" ou "repressão moderada": trata-se mesmo de um regime totalitário, em pleno século XXI, assente na crença positivista do progresso imparável e ilimitado, ou o historicismo hegeliano que, aliás, inspirou os dois mais sanguinários totalitarismos do século passado (a História teima em repetir-se), o nazismo e o comunismo.

A este propósito, replico aquilo que já escrevi aqui, na medida em que permanece actual. Nas democracias pluralistas, o cidadão é parte integrante do processo político por via representativa, fazendo valer as suas aspirações e preocupações. Nas ditaduras torcionárias, pelo contrário, embebidas numa profunda crença historicista, o cidadão é reduzido à condição de mero pino da máquina do progresso. Para além do cidadão, também a própria natureza acaba por ser relativizada em nome desses "amanhãs que cantam". Desastres ambientais como Chernobyl ou o Mar de Aral terão contribuído para a desintegração da União Soviética. Lições amplamente ignoradas pelo actual regime chinês que, sedento por mais recursos energéticos, desloca milhões de pinos devido à construção da Barragem das Três Gargantas e, sem hesitações morais, avança com um ambicioso programa nuclear, enquanto as democracias ocidentais debatem Fukushima.

Até que surja uma espécie de Mikhail Gorbachev chinês? Ora, Xi Jinping, o senhor que se seguirá na linha de sucessão dinástica, parece ter mais credenciais de Leonid Brezhnev, no sentido de um recrudescimento da facção conservadora, do que propriamente de Gorbachev, alguém capaz de abrir o caminho para políticas reformistas de "perestroika" (reestruturação) e "glasnost" (transparência). Não obstante, há alguns indícios de grave deformação das premissas fundamentais do regime, desde logo as notícias (plasmadas na imprensa livre ocidental) que dão conta do enriquecimento secreto de elementos da cúpula política, nomeadamente das famílias do primeiro-ministro Wen Jiabao e do futuro presidente Xi Jinping, que se acrescem ao flagelo da corrupção e à exponenciação das assimetrias regionais e sociais. A História teima em acelerar.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Keynes vs. Hayek


[Propaganda norte-americana da II Guerra Mundial].

A crise económica que assola o "mundo ocidental", com particular incidência na Europa do Sul, resgatou do hermetismo académico a clássica dicotomia entre a necessidade de "intervenção estatal" de John M. Keynes e o imperativo do "livre mercado" segundo Friedrich von Hayek. Somos impelidos a obedecer a uma grelha de pensamento maniqueísta - investimento público ou disciplina orçamental? planeamento centralizado ou "ordem espontânea"? regulação do mercado ou "Governo limitado"? Ninguém é neutro. As teorizações económicas de Keynes e Hayek, no entanto, são bastante mais complexas do que aquilo que muitos dos seus cultores do século XXI querem fazer crer, para meros efeitos políticos, desde logo a contraposição simplista entre "crescimento" e "austeridade". Em plena era pós-ideológica cavam-se trincheiras artificiais entre dois conceitos tão vagos quanto plásticos nas suas consequências práticas. Como se fossem um fim em si mesmo, anulando-se um ao outro no âmbito de um jogo de soma zero.
 
A superação desta crise que não é apenas económica, mas política, social, cultural (no limite, civilizacional), poderá resultar, em parte, do desbloqueamento de tal grelha de pensamento maniqueísta. Na forma, talvez, de uma nova abordagem que incida sobre o cerne da dicotomia entre keynesianos e hayekianos: o primado do consumo, no contexto de uma «sociedade que não tem outro objectivo que não seja o crescimento pelo crescimento.» Acrescenta Serge Latouche, «uma sociedade em que quando as necessidades estão satisfeitas é preciso criar outras para se continuar a crescer. Temos o nosso destino ligado a esta lógica e é daí que temos que sair.» [*] Começando por retirar ensinamentos de outras áreas de pensamento para além da economia, através da leitura de filósofos, sociólogos, antropólogos, historiadores. Sobretudo aqueles que sobreviveram aos conflitos mundiais do século XX, com conhecimento de causa sobre a privação de necessidades básicas.
 
A título de exemplo, eis um breve excerto do pungente livro de memórias ("The Memory Chalet", 2010) que o malogrado historiador Tony Judt escreveu, aliás, ditou a partir do cárcere corpóreo inerente à doença motora neurológica (doença de Lou Gehrig) de que padeceu: «O oposto de austeridade não é a prosperidade mas 'luxe et volupté'. Ao propósito público substituímos o comércio sem fim, e dos nossos dirigentes não esperamos grandes aspirações. Sessenta anos depois de Winston Churchill apenas poder oferecer 'sangue, labor, lágrimas e suor', no rescaldo do dia 11 de Setembro de 2001 o nosso próprio presidente em tempo de guerra - e apesar do moralismo exaltado do seu discurso - não se lembrou de nada mais do que pedir-nos que continuássemos a comprar. Esta visão empobrecida da comunidade - 'o estarmos todos juntos' no consumo - é tudo o que merecemos dos que nos governam. Se queremos governantes melhores, temos de aprender a exigir mais deles e menos para nós próprios. Poderá ser necessária alguma austeridade.»
 
[*] Entrevista do economista Serge Latouche ao jornal "Público", edição 19 de Março 2012.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Vanguarda pretensiosa


["The Film Snob's Dictionary - An Essential Lexicon of Filmological
Knowledge", David Kamp & Lawrence Levi, Broadway 2006].

Da introdução ao dicionário (tradução portuguesa pela Tinta-da-China): «A atitude do cinéfilo snob é a de quem sabe com propriedade - o prazer que ele retira dos filmes advém não apenas da experiência sensorial do seu visionamento, mas também do facto de ele saber mais sobre cinema do que os outros e de proteger zelosamente essa sabedoria do povinho que adora a Julia Roberts e que não tem direito a ser fluente no que toca à obra de Samuel Fuller (de 'O Cão Branco') ou de Andrei Tarkovsky (do 'Solaris' original). Aliás, o cinéfilo snob deleita-se com a ideia de que 'o público é estúpido e impossível de educar', e é isso que o separa dos cinéfilos mais benevolentes, aqueles entusiastas efusivos que, como Martin Scorsese, se comprazem em dar a conhecer 'O Ladrão de Bicicletas' e os filmes da dupla Power-Pressburger aos iniciados.» É irresistível a associação deste atestado de "snobice" à forma sobranceira como a "crítica" lusitana desdenhou do mais recente filme de Scorsese, precisamente, "Hugo" (2011), que para além do crime de lesa-pátria da nomeação para os "Oscars" (qual emanação mefistofélica), ousa partilhar com os comuns mortais uma desassombrada lição sobre as origens e os maiores pioneiros do cinema, dos irmãos Lumière ao mago Georges Méliès...

quinta-feira, 31 de maio de 2012

A grande reconvergência



Para além do livro, "Civilization: The West and the Rest" (Penguin, 2011), atente-se na série documental transmitida via Channel 4, "Civilization: Is the West History?" (2011), ao que se acrescem a conferência proferida em Edimburgo, "The 6 Killer Apps of Prosperity" (TEDGlobal 2011), ou os ensaios publicados regularmente nas páginas da revista "Newsweek". Niall Ferguson em dose quádrupla, no âmbito de uma busca pela resposta à questão colocada por "Rasselas, Príncipe da Abissínia" (1759), personagem do livro da autoria de Samuel Johnson: «By what means are the Europeans thus powerful; or why, since they can so easily visit Asia and Africa for trade or conquest, cannot the Asiatics and Africans invade their coasts, plant colonies in their ports, and give laws to their natural princes? The same wind that carries them back would bring us thither.» Ou seja, como é que uma pequena minoria da população mundial, originária da extremidade ocidental da Eurásia, conseguiu dominar o mundo durante quase 500 anos?


Ferguson, historiador escocês, relativiza a importância dos factores culturais e geográficos, comummente utilizados como justificação para a hegemonia ocidental. Na sua perspectiva, o que realmente conta são as ideias e as instituições. Daí apresentar um exemplo prático que parece algo simplista mas refuta eficazmente esse determinismo cultural e geográfico: «O século XX realizou uma série de experiências que impuseram instituições bastantes diferentes a dois conjuntos de alemães (ocidentais e orientais), coreanos (do Norte e do Sul) e chineses (dentro e fora da República Popular). Os resultados foram espantosos e a lição inequívoca. Se se pegar nas mesmas pessoas, com mais ou menos a mesma cultura, e se impuser instituições comunistas a um grupo e instituições capitalistas a outro, verificar-se-á quase de imediato uma divergência no modo como se comportam.» Em suma, ideias e instituições plasmadas em 6 aplicações-chave que marcaram toda a diferença (ou a "Grande Divergência" de Kenneth Pomeranz) entre o Ocidente (Europa Ocidental, América do Norte e Australásia, tal como delimitado por Samuel P. Huntington) e o Resto:

1. Competição
2. Ciência
3. Direitos patrimoniais
4. Medicina
5. Sociedade de consumo
6. Ética de trabalho

No espaço e tempo de apenas uma geração poderemos testemunhar a "Grande Reconvergência", na medida em que o Resto se presta a descarregar as aplicações-chave (ainda que selectivamente), enquanto o Ocidente parece soçobrar em dúvidas sobre a sua validade e eficácia. Ferguson alerta: «A maior ameaça à civilização ocidental não é colocada por outras civilizações mas pela nossa própria pusilanimidade - e pela ignorância histórica que a alimenta.» Até porque a ascensão da China talvez não seja um processo tão inexorável...

Mais, passa em revista o declínio ocidental (objectivo ou relativo) nas aplicações-chave: «Costumavam ser estes alguns dos alicerces principais da civilização ocidental. Contudo, nos últimos anos, o Ocidente parece ter perdido a sua fé neles. Além de as igrejas europeias estarem vazias, parece haver dúvidas quanto ao valor de muita coisa que se desenvolveu na Europa depois da Reforma. A competição capitalista foi desgraçada pela recente crise financeira e pela ganância galopante dos banqueiros. Na escola e na universidade, são muito poucas as crianças que estudam ciência. Os direitos patrimoniais privados são repetidamente violados por governos que parecem ter um apetite insaciável pela tributação dos nossos rendimentos e da nossa riqueza e pelo esbanjamento de uma grande percentagem das receitas. 'Império' tornou-se um palavrão, não obstante os benefícios conferidos ao resto do mundo pelos imperialistas europeus. Arriscamo-nos a ficar com uma sociedade de consumo e uma cultura de relativismo nas mãos, cultura que diz que qualquer teoria ou opinião, por muito escandalosa que seja, é tão boa como aquilo em que costumávamos acreditar.»

domingo, 6 de maio de 2012

Existencialismo tropical


["O Som ao Redor", 2012, Kleber Mendonça Filho].

Quem diria, reencontrar o cinema existencialista de Michelangelo Antonioni a tão baixa latitude, próxima da linha do Equador, no Recife da costa pernambucana. Mesmo em território brasileiro, o pós-modernismo linear de Brasília ou o cosmopolitismo desordenado de São Paulo seriam as escolhas mais expectáveis para uma "reprise" tropical da Roma aberta e eclipsada de Antonioni (ao som de Sergei Prokofiev). Aliás, em vez de música clássica, Kleber Mendonça Filho opta por um ensaio de "field-recording" do quotidiano, o som ao redor de um aquário (condomínio privado com segurança privada), ruído que se vai infiltrando por entre os vértices arquitectónicos - «É tão moderno que parece uma fábrica!» - dos não-lugares, reservatórios de solidão antropológica, habitados pela dita "classe média alta" (numa história toldada pelo tédio e sentimento de culpa burgueses, traçando como que uma diagonal ao neorrealismo italiano). Camada sobre camada de histórias e sentimentos que vão sendo sugeridos por Mendonça Filho, mas nunca declarados.

Num filme que fascina mais pelo que não diz do que pelo que revela de concreto, através de uma narrativa visual que utiliza sucessivos "raccords" sonoros como combustão metafísica. E tal como na obra-prima de Antonioni, há uma relação que se queda num desencontro, ou um fogacho de paixão que embate em mais uma barreira arquitectónica (o pilar da Bolsa de Roma entre Monica Vitti e Alain Delon). Acrescida de toda uma ambígua sensação de mal-estar (do pós-II Guerra de Antonioni ao pós-colonialismo de Mendonça Filho), um desassossego visceral que gera tensão, por sua vez exponenciada pelo som ao redor - a violência comprimida que culmina na explosão de um foguete. Sem redenção. Eis que um erro do passado surge a assombrar o presente e damos por nós a revisitar a galeria de personagens fantasmagóricas imaginadas por Stanley Kubrick (não por acaso, citado logo na primeira sequência do filme, o "travelling" atrás das crianças em que só faltou o triciclo). Nas entrelinhas, a ascensão e queda de um Barry Lyndon fazendeiro.

quarta-feira, 21 de março de 2012

A civilização ateia


[Václav Havel & Olga Havel, 17 de Fevereiro 1990].

Entre os muitos textos, mais ou menos elegíacos, que se escreveram e publicaram na imprensa a propósito da morte de Václav Havel (Praga, 18 de Dezembro 2011), destaco o artigo de Jorge Almeida Fernandes no jornal "Público", a 24 de Dezembro 2011, por não se limitar a uma resenha histórica e biográfica, ao invés projectando o pensamento de Havel no presente e futuro próximo.

«Vivemos na primeira civilização ateia, por outras palavras, numa civilização que perdeu a conexão com o infinito e a eternidade», alertou Havel, num discurso proferido em Outubro de 2010, citado por Fernandes.
«Apontava-lhe dois efeitos. Primeiro, a preferência pelo ganho a curto prazo. 'O que é importante é que um investimento seja rentável em 10 ou 15 anos: o modo como afectará as vidas dos nossos descendentes dentro de 100 anos é menos importante'. Segundo: o 'orgulho', aquilo que os gregos denominavam por 'hubris', a 'ideia arrogante de que conhecemos tudo e que aquilo que ignoramos depressa o descobriremos, porque vamos saber tudo'. É a convicção de que o progresso da ciência, da tecnologia e do conhecimento racional em geral 'induzem crescimento, mais crescimento e ainda mais crescimento'.»

«Havel suspeita que 'a nossa civilização caminha para a catástrofe', a menos que corrija 'a sua miopia e a sua estúpida convicção de omnisciência, o seu desmesurado orgulho'», escreve Fernandes. E conclui: «O actual momento de crise, a generalização da insegurança, os conflitos no horizonte - e a experiência dos limites do 'orgulho' - justificam a evocação de uma outra profecia feita em 1994: 'Dada a sua fatal incorrigibilidade, a Humanidade terá provavelmente de atravessar muitos outros Ruanda e muitos outros Chernobyl antes de compreender quão incrivelmente míope pode ser um ser humano ao esquecer que não é Deus'.»

É um texto admirável, muito para além do mero obituário de circunstância. A complementar com a leitura da recente entrevista do economista Serge Latouche ao jornal "Público" (19 de Março 2012), sem qualquer referência a Havel mas apontando no mesmo sentido: «O problema não é o crescimento. É a sociedade que não tem outro objectivo que não seja o crescimento pelo crescimento. Não se trata de crescer para se satisfazerem as necessidades, que é uma coisa excelente. O que temos é uma sociedade em que quando as necessidades estão satisfeitas é preciso criar outras para se continuar a crescer. Temos o nosso destino ligado a esta lógica e é daí que temos que sair.» Do chamamento pós-religioso de "transcendência" (Havel) até aos espectros de "situacionismo" e "malthusianismo" (Latouche), vasta matéria para reflexão.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Nos idos de 1972



Hunter S. Thompson (alter-ego: "Gonzo"), expoente do "New Journalism" que batia "The Great Gatsby" de F. Scott Fitzgerald à máquina, repetidas vezes, em busca da sensação de escrever uma obra-prima daquele calibre literário, acompanhou e relatou, a expensas da revista "Rolling Stone", a campanha do candidato do Partido Democrata às eleições presidenciais norte-americanas de 1972, George McGovern. Resultado: uma série de reportagens altamente subversivas, como era apanágio de Thompson, mais tarde vertidas em livro, intitulado "Fear and Loathing on the Campaign Trail '72". Nos textos deste "agente provocador", a linha que separa a ficção da realidade, ou vice-versa, é demasiado difusa. Não obstante, a corrida eleitoral de 1972, por si só, foi prolífica em acontecimentos que desafiam a imaginação humana.

Desde logo nas agitadas eleições primárias para a nomeação do candidato do Partido Democrata, em que um dos 12 concorrentes, George Wallace (à procura da sua quarta candidatura presidencial), foi baleado 5 vezes por Arthur Bremer, numa acção de campanha em Laurel, Maryland, dia 15 de Maio. Wallace sobreviveu mas ficou paralisado da cintura para baixo e acabou por desistir da eleição. Bremer foi condenado a 63 anos de prisão mas só cumpriu 35 anos (encontra-se em "liberdade condicional" desde 2007). O móbil do crime e o perfil psicológico de Bremer serviram de fonte de inspiração aos guiões dos filmes "Nashville" (1975) de Robert Altman e "Taxi Driver" (1976) de Martin Scorsese que, por sua vez, terão influenciado a tentativa de assassinato do presidente Ronald Reagan, em 1981, perpetrada por John Hinckley.


[Laurel, Maryland, 15 de Maio 1972].

George McGovern assegurou a nomeação do Partido Democrata e concorreu contra o recandidato apoiado pelo Partido Republicano, Richard Nixon, a caminho do segundo mandato na "Casa Branca". A campanha de McGovern desenvolveu-se sob o mote "Come Home America", ou seja, a promessa de retirada das tropas norte-americanas do Vietname (e do Sudeste Asiático em geral). Nixon foi reeleito com uma das maiores margens eleitorais da democracia dos EUA: mais de 60% dos votos. Na noite de 7 de Novembro, no calor da vitória, brincou com o facto de poder ir dormir tão cedo (só não ganhou no Massachussets e Columbia).

Não duraria muito, o segundo mandato de Nixon. Cinco meses antes, a 7 de Junho, ocorrera o assalto à sede do Partido Democrata, no edifício Watergate, em Washington D.C. Ora as primeiras notícias sobre o caso passaram relativamente despercebidas, muito antes da investigação de Carl Bernstein e Bob Woodward nas páginas do "The Washington Post" (com o precioso auxílio da "Garganta Funda", entretanto desvendada como sendo Mark Felt, dirigente do FBI). As manchetes dos jornais destacavam então o historial clínico da saúde mental do candidato a vice-presidente de McGovern, Thomas Eagleton, uma 8ª escolha que viria a revelar-se desastrosa: após vários episódios de depressão profunda, por entre esgotamentos nervosos, estava a tomar medicamentos anti-psicóticos e o risco de uma recaída era bastante considerável. Só que McGovern demorou a reagir (talvez por a filha também sofrer de depressão) e quando finalmente o fez, a 1 de Agosto, trocando Eagleton por Sargent Shriver, os danos na sua credibilidade já eram irreversíveis.

«Is Nixon himself who represents that dark, venal and incurably violent side of the American character almost every other country in the world has learned to fear and despise», profetizou Hunter S. Thompson, quando ainda não tinha rebentado o escândalo de Watergate que levou à resignação de Nixon. Dentro do surrealismo da sua escrita semi-ficcional, ou semi-jornalística, toda uma lucidez banhada em ácidos mais ou menos coloridos. Thompson que na campanha das eleições primárias do Partido Democrata escrevera que Edmund Muskie, um dos oponentes de McGovern, era viciado em ibogaína (ministrada por um tal médico brasileiro que integrava a "entourage" de Muskie), baseando-se num falso rumor que ele próprio lançara.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O olho direito de Dayan


[General Moshe Dayan, 1915-1981].

No Verão de 2010, Robert Fisk, correspondente em Beirute há 34 anos, alertou para a iminência de mais uma guerra entre Israel e o Líbano (ou Irão, via Hezbollah) em meados de 2011. A profecia, contudo, não se materializou. Fisk baseava-se nas informações que tinha recolhido no terreno mas não contaria com a brisa de mudança política que soprou entre o Magrebe e o Médio Oriente, fazendo tombar três regimes até então considerados inexpugnáveis (a começar pelas democracias ocidentais com quem faziam negócios).

Em vez de uma guerra "indirecta" no Líbano, as agulhas viram-se agora para a hipótese de um confronto directo entre Israel e o Irão, na sequência do novo relatório da Agência Internacional de Energia Atómica sobre o incessante programa nuclear iraniano. Mais concretamente, para um eventual bombardeamento das instalações nucleares iranianas pelas forças militares israelitas. É um cenário aventado desde há vários anos, só que nunca tão prementemente. Ao ponto de Gary Sick, professor da Universidade de Columbia, questionar-se na "Time" sobre a efectividade de tal ameaça: «If Israel were actually considering a highly dangerous strike on a well-armed enemy, would they be kicking the idea around for everyone to see?»

O raciocínio de Sick parece lógico, mas talvez esteja a partir de uma assumpção ultrapassada: ora, o Israel imbatível e estrategicamente astucioso do General Moshe Dayan, o Israel da "Guerra dos Seis Dias" (1967) em que retorquiu a um ataque concertado de dezenas de nações árabes e não só venceu a guerra em apenas seis dias como conquistou novos territórios (Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jerusalém Oriental, Montes Golã), esse Israel encontra-se em vias de extinção. «We move from war to war, and this will never stop. I think Zionism has run its course», lamenta a viúva Ruth Dayan, nas páginas da "Newsweek".

Da Faixa de Gaza ao Líbano, da flotilha "turca" ao muro dito "de separação", dos novos colonatos ao resgate do soldado Gilad Shalit (trocado por 1027 prisioneiros palestinianos!), sucedem-se os erros estratégicos de um Israel cada vez mais sitiado no seu bunker paranóico e hiper-securitário. Daí que não seja inteiramente descabido equacionar-se um ataque contra as instalações nucleares iranianas, apesar da anulação do "factor surpresa". Mesmo sem o olho esquerdo que perdeu no campo de batalha, durante a "Guerra dos Seis Dias", quanta falta faz nos dias de hoje a bravura com inteligência e visão estratégica de Dayan, um dos fundadores de um "sonho" que parece estar a desvanecer. «I long for the old Israel», confessa Ruth Dayan.

domingo, 13 de novembro de 2011

Complexo da indústria política



A tradição "liberal" (conceito referente à cultura política anglo-saxónica; não confundir com o sentido que lhe é conferido ao nível da economia política europeia) do cinema norte-americano tem sido revisitada com especial predilecção por dois actores-realizadores, Robert Redford e George Clooney, na senda dos grandes clássicos do género, da autoria de Alan J. Pakula (Redford encarnou Bob Woodward em "All the President's Men", 1976) ou Sydney Pollack. Também poderíamos nomear Oliver Stone, mas a ambiguidade ideológica da trilogia de "biopics" presidenciais (John F. Kennedy, Richard Nixon, George W. Bush) remetem-no para outra prateleira, com uma linguagem mais complexa e dissonante.

Foquemo-nos, portanto, em Redford e Clooney. Apesar da aparente similitude das intenções, os resultados são distintos. Ao passo que o primeiro tende a ceder à tentação do paternalismo, o segundo é mais incisivo e consegue superar a redundância inerente aos exercícios de nostalgia. Não por acaso, Redford opta por uma perspectiva algo professoral, como quem procura fazer pedagogia. Por sua vez, Clooney evita os anfiteatros universitários e dedica-se a palmilhar territórios habitados por jornalistas e "spin-doctors". A diferença de idades, na ordem dos 25 anos, ajuda a explicar a ligeira dicotomia. Ao que se acresce uma importante nota biográfica: o pai de Clooney foi jornalista, ainda que alguns furos abaixo de Edward R. Murrow.

Os filmes de Clooney captam muito melhor o "zeitgeist" do século XXI do que os de Redford. Não tanto por incorporarem mais a tecnologia de consumo (telemóveis, computadores, etc.) que é utilizada como forma de preenchimento do vazio pós-ideológico e pós-religioso, mas sobretudo por conterem narrativas realistas que parecem basear-se em recortes de jornais, instantâneos de uma época tão cínica e viciada quanto as de McCarthy, Watergate ou Vietname. "The Ides of March" (2011) é um impressionante retrato da política contemporânea, pleno de inteligência e sagacidade. Vai beber inspiração aos clássicos da tradição "liberal" mas não se limita a homenageá-los, ensaiando uma transposição para os desafios do presente.

domingo, 9 de outubro de 2011

O zero e o infinito



«Steve Jobs was the greatest inventor since Thomas Edison. He put the world at our fingertips», proclama Steven Spielberg (o inventor do "blockbuster" com sequelas), alimentando o "unanimismo" característico da morte. Edison, entre outros feitos extraordinários (não sem parcerias e vastas equipas de "assistentes" na retaguarda), inventou o fonógrafo, o cinetógrafo e a lâmpada incandescente "comercializável" (na sequência de 22 tentativas frustradas por outros tantos inventores). Jobs, fonte de veneração pós-religiosa, inventou os computadores pessoais Macintosh com sistema operativo de "rato" e "janelas" (que já tinham sido criados pela Xerox... Jobs tornou-os "comercializáveis" através de "marketing", "design" e "marca"), o iPod (quando já existiam dezenas de modelos de leitores MP3), o iPhone (milionésimo modelo de telemóvel que até tem uns filtros giros para as fotografias), o iPad (três longos anos após os primeiros "tablets"), etc.

Mark Zuckerberg, criador do Facebook, referiu-se a Jobs como um "mentor". O que é o Facebook para além de uma "agregação", "adaptação" e "aplicação" de ideias alheias? Tal como existiram centenas de redes sociais anteriormente, surgirão inúmeras mais posteriormente. Em suma: "marketing", "design" e "marca", pouco mais há que destacar. Daqui a alguns anos o Facebook parecerá tão anacrónico quanto o mIRC. Quanto aos sublimes aparelhos da Apple (extensões corporais à Cronenberg), o prazo de validade também é demasiado reduzido. Vão começar a amontoar-se nas lixeiras electrónicas em África, para onde os países desenvolvidos ocidentais remetem, via marítima, as tecnologias de consumo obsoletas que já não utilizam.



No dia anterior à morte de Jobs, o Prémio Nobel da Física foi atribuído aos cientistas norte-americanos Saul Perlmutter, Brian Schmidt e Adam Riess - «for the discovery of the accelerating expansion of the Universe through observations of distant supernovae.» Não só o Universo continua a expandir-se, como o faz cada vez mais depressa. Uma aceleração que resulta, acredita-se hoje, de uma enigmática "energia escura" que contraria o efeito da gravidade. Ora, essa "energia escura" representará mais de 70% do Universo, ao que se acrescem a "matéria escura" (não menos invisível) e uma pequena fracção de matéria "normal" (aquilo que conseguimos ver à nossa volta, na Terra e no Espaço). As equipas de Perlmutter, Schmidt e Riess mediram a velocidade da expansão do Universo através da observação de supernovas (estrelas que morrem numa imensa explosão), nomeadamente as "anãs brancas", que têm uma massa comparável à do nosso Sol, mas concentrada numa esfera do tamanho da Terra. A luz das supernovas observadas revelou-se mais fraca do que o previsto, sinal cosmológico de que a expansão do Universo estará a acelerar e não a abrandar.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A laranja mecânica



Mais do que os tempos severos de Margaret Thatcher, a vaga de motins em Londres (entre outros centros urbanos) faz recordar "A Clockwork Orange" (1962), obra-prima de Anthony Burgess (adaptada ao cinema por Stanley Kubrick em 1971). Perante a violência gratuita, espectro do "estado de natureza" hobbesiano, há duas linhas narrativas: à direita, o imperativo de punição dos prevaricadores («If you've got them by the balls their hearts and minds will follow», filosofava John Wayne nos 60's); à esquerda, a culpabilização do contexto social («There is no such thing as society», retorquia Thatcher nos 80's). Tese, antítese, síntese hegeliana: a laranja mecânica do sistema político. Os novos "droogs" dos 00's trocaram os chapéus de coco pelos carapuços mas as (des)motivações serão praticamentes as mesmas: liquefacção da estrutura familiar, extinção do princípio de "prazer diferido" (esforço anterior ao usufruto da retribuição, conceito invertido pelo admirável mundo novo da "vida a crédito") e endeusamento da juventude (associado ao fetichismo da "tecnologia de consumo"). Temo que o efeito de "panela de pressão" volte a causar muitos estragos.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Típico humor britânico


["Spitting Image", 1984-1996].

No seguimento do texto anterior, em torno da queda de Margaret Thatcher, há um elemento presente em toda aquela sucessão de actos trágicos, como forma de expiação da gravidade dos tempos: o típico humor britânico. Não me refiro apenas à série televisiva "Spitting Image", que não sobreviveria muitos mais anos sem a "Dama de Ferro" (personagem principal), cujos bonecos destilavam um tal humor ácido que não seria tolerado noutras culturas políticas menos liberais. Refiro-me também ao brilhante discurso de resignação do ministro Geoffrey Howe - «I must be the first Minister in history who has resigned because he was in full agreement with Government policy», sob gargalhada geral na Câmara dos Comuns. Ou o episódio com o jornalista da BBC John Sergeant, à porta de Thatcher, surpreendido pelas costas e em directo. Ao que se acrescem o discurso de despedida de Thatcher na Câmara dos Comuns e, mais recentemente, as palavras que proferiu aquando da inauguração da estátua em sua honra no mesmo edifício - «I might have preferred iron, but bronze will do. It won't rust. And, this time I hope, the head will stay on», para gáudio incontido de quem assistiu à cerimónia. Ironia das ironias, cinco meses mais tarde a estátua acabaria mesmo por ser decapitada, às mãos de um dos muitos inimigos que granjeou com a severidade das suas políticas.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Tragédia clássica grega


[Margaret Thatcher & Geoffrey Howe].

Não eclodiam motins em Londres, pelo menos não com este nível de violência, talvez desde os tempos de austeridade sob a liderança de Margaret Thatcher, a "Dama de Ferro", sobretudo quando implementou a malfadada "Poll Tax" (um imposto comunitário não progressivo) que abriria o caminho para a sua própria morte política. Qual tragédia clássica grega, a queda de Thatcher resultou menos da contestação popular exterior do que das manobras de bastidores no interior do Governo e do Partido Conservador. A começar pelo mais fiel ministro, Geoffrey Howe, cansado de ser humilhado em público por uma mentora que não admitia qualquer tipo de dissensão. A gota de água foi a declaração de Thatcher, no Conselho Europeu de Roma, em 1990, assegurando que a Grã-Bretanha jamais abdicaria da libra para integrar a moeda única europeia. O discurso de resignação de Howe na Câmara dos Comuns não tardou, desferindo a machadada mais certeira, quase fratricida, no âmago do poder de Thatcher - com aquele sorriso empedernido, ao lado de John Major, impávida e serena. Duas semanas depois já não seria primeira-ministra britânica.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Simplismo panfletário



Ainda não li o livro de Naomi Klein, mas já vi o filme de Mat Whitecross e Michael Winterbottom que se baseia, precisamente, na mais recente obra da jornalista, escritora e activista canadiana. Não quero tecer considerações definitivas apenas com base no filme, mas parece-me que o argumento central padece de um simplismo panfletário (à Michael Moore) pouco consentâneo com a inteligência de Klein, autora da bíblia dos movimentos alter e anti-globalização dos anos 90, com epicentro em Seattle. A maior parte dos factos apresentados são verídicos, só que há muitos outros que são omitidos e a montagem sequencial obedece a um desígnio subreptício: apontar o "neoliberalismo" de Milton Friedman (via Augusto Pinochet, Margaret Thatcher e Ronald Reagan) como a causa de todos os males sociopolíticos do mundo contemporâneo.



Somos levados a supor que a Guerra das Falkland em 1982 ou os atentados terroristas do dia 11 de Setembro de 2001 terão resultado, afinal, de rebuscadas conspirações "neoliberais" com o objectivo de privatizar mais serviços estatais, gerar desemprego e incrementar as disparidades de rendimentos. A doutrina do choque passa pelo aproveitamento de guerras e crises económicas, entre outros acontecimentos disruptivos, para implementar (contra a vontade popular, ainda que sob legitimação eleitoral, estranho paradoxo) as ideias perniciosas dos "Chicago boys" de Friedman. A analogia com as experiências levadas a cabo pelo psiquiatra Ewen Cameron nos anos 50, a mando da CIA, prefigurando técnicas de tortura, roça a pornografia. Em vez de inteligência analítica e informativa, Klein opta por um engajamento ideológico que lhe tolda a lucidez de raciocínio. Ainda não se terá refeito do erro de garantir que a globalização rimaria com americanização.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Ladrões de bicicletas


["Moonlighting", 1982, Jerzy Skolimowski].

Descoberta tardia, fruto dilecto da ignorância. Só comecei a explorar a filmografia deste obscuro cineasta polaco após o advento de "Four Nights With Anna" (2008) - filme admirável, pleno de maturidade criativa, que me apanhou desprevenido. Obscuro cineasta polaco porque não filmava desde 1991, embora disponha de uma obra recheada de preciosidades. Desde logo "Walkower" (1965), a primeira longa-metragem, como que um anti-épico em torno do submundo do boxe (passou na Cinemateca Portuguesa). Ou a colaboração com o velho amigo Roman Polanski na feitura do argumento de "Knife in the Water" (1962). Ressurgiu no ano passado via "Essential Killing" (2010) - visceral, quase mudo, exímio Vincent Gallo. Mas não é, de todo, um realizador consensual, Jerzy Skolimowski, cuja "marginalidade" artística gera fascínio e interrogação.

Entre os escassos filmes que vi, bastante difíceis de encontrar, destaco como favorito este que tem a minha idade e é protagonizado por um imenso Jeremy Irons. Anos 80, ainda a Cortina de Ferro vaticinada por Winston Churchill, operários polacos a caminho do "spleen" londrino em busca de libras fortes que valiam muitos mais złotys fracos (prenúncio de um recente mito urbano: o vil "canalizador polaco"), o "realismo britânico" à Stephen Frears e Mike Leigh, o marxismo da "luta de classes", os instintos primários inerentes à natureza humana (a essência hobbesiana do cinema de Skolimowski, tal como o de Polanski), a repressão do movimento sindical Solidarność através da imposição da lei marcial em 1981, o estertor do comunismo leste-europeu, a Grã-Bretanha sob Margaret Thatcher, ou até os ladrões de bicicletas à Vittorio De Sica...

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Ansiedades obsoletas


[Capa da revista "Time", edição 10 de Maio 1971].

Reminiscências do século passado: ver filmes num televisor "Black Trinitron" da Sony. Destacavam-se no centro das salas-de-estar ocidentais, mas foram sendo progressivamente relegados para arrecadações que se assemelham a cemitérios de tecnologia obsoleta, por entre recortes de jornais amarelecidos e revistas não menos empoeiradas anunciando uma "invasão" de produtos japoneses. O corolário de uma nova estratégia comercial: em vez de copiarem os produtos ocidentais, utilizavam a tecnologia ocidental para criar inovados e sofisticados produtos de marca oriental (uma inversão do modelo chinês). Ora, a fulgurante ascensão económica do Japão, entre as décadas de 70 e 80, gerou naturais receios e ansiedades no mundo ocidental que só acabaram por ser mitigados com a grande recessão nipónica dos anos 90. Repetir-se-á a História no século XXI relativamente à China? Ou a morte do eurocentrismo, a decadência ocidental e a frugalidade da superpotência norte-americana serão processos inexoráveis?A aceleração temporal promete surpresas.

domingo, 10 de julho de 2011

Missão crepuscular


[John F. Kennedy Space Center, Merritt Island, Florida].
[Clicar na fotografia para ampliação].

A descolagem do vaivém Atlantis para uma última missão rumo à Estação Espacial Internacional, ocorrida no dia 8 de Julho de 2011, marca o fim de uma era norte-americana de exploração espacial. Não quero com isto sugerir que o futuro pertencerá forçosamente aos taikonautas chineses, tal como nas primeiras décadas da Guerra Fria se julgou que pertenceria aos cosmonautas soviéticos. Mas não deixa de ser mais um sinal de que os EUA se preparam para uma retracção geoestratégica, tanto na exploração espacial como na projecção de poder militar no exterior. Leia-se, nesse sentido, o profético "The Frugal Superpower: America's Global Leadership in a Cash-Strapped Era" (PublicAffairs, 2010), de Michael Mandelbaum. «When Barack Obama was elected in 2008 he and his supporters expected that his presidency would transform the United States of America. […] Because they will have to spend so much more than it has in the past on obligations at home […] it will be able to spend less than in the past on foreign policy. Because it will be able to spend less, it will be able to do less. Just what the United States will and will not do will be the most important issue in international relations in the years ahead», enfatiza Mandelbaum, logo nas páginas iniciais.

Uma superpotência crepuscular ou mero exagero de análise? Ainda é cedo para se poderem formar certezas, em pleno período de transição, adaptação, reconfiguração. Nos próximos anos, não obstante, os astronautas norte-americanos dependerão das cápsulas russas Soyuz para viajarem até à Estação Espacial Internacional, algo inimaginável há apenas uma década atrás. A NASA está a projectar a construção de novas naves para missões espaciais mas ainda não se definiram os prazos de execução. Restarão suficientes dólares? Depende da reacção dos EUA à iminência crepuscular. No discurso sobre o "State of the Union" em Janeiro de 2011, o próprio Obama proclamou que «this is our generation's Sputnik moment», em referência ao lançamento do primeiro satélite espacial pelos soviéticos, em Outubro de 1957, que colocou em causa a superioridade estratégica nuclear dos EUA. «Aparentemente, os soviéticos eram capazes de construir um míssil balístico intercontinental mais avançado do que os vectores equivalentes no arsenal norte-americano. A resposta ao 'missile gap' foi lançada pelo general Eisenhower, que criou a NASA e abriu as portas a um investimento público maciço em ciência e tecnologia indispensável para restaurar a segurança nacional e a balança do poder», relembra Carlos Gaspar no "Público" (edição 27/01/11). Conseguirá Obama, mais de cinco décadas depois, arregimentar uma sociedade tão sobreendividada no sentido de enfrentar os novos desafios?

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Os nus e os mortos


[Sebastian Junger & Tim Hetherington].
[Clicar na fotografia para ampliação].

O escritor Sebastian Junger e o fotojornalista Tim Hetherington, ambos norte-americanos, co-realizadores do documentário "Restrepo" (2010), vencedor do "Grand Jury Prize" no Sundance Film Festival de 2010 e, entre outras distinções, nomeado para os Oscars de 2011 na categoria de "Documentary Feature" (perdeu para "Inside Job", 2010, de Charles Ferguson). Durante 12 longos meses estiveram integrados num pelotão de soldados norte-americanos em combate no Vale Korengal, uma das mais acidentadas frentes de guerra no Afeganistão. Qualquer reportagem ou documentário no formato "embedded" padece, à partida, de uma distorção irresolúvel: a perspectiva do inimigo é naturalmente subalternizada. Ao dependerem dos soldados norte-americanos para sobreviver, ao partilharem com eles as mais diversas vivências, ao testemunharem a guerra a partir do interior de uma base norte-americana (o posto avançado Restrepo, em homenagem ao soldado Juan "Doc" Restrepo, morto em combate), como é que Junger e Hetherington poderiam alguma vez traçar um retrato equidistante, ou sequer apresentar a perspectiva de um inimigo invisível?



Não obstante, trata-se de um trabalho meritório, na justa medida em que não se deixa quedar em exercício de propaganda (pró ou anti-guerra). Pelo contrário, dedica-se a um relato pungente sobre as profundezas psicológicas (sem pretender demonstrar, sem recorrer à demagogia) de uma guerra que acaba por se revelar carente de sentido, estratégia ou finalidade. Atente-se nos anciões afegãos (aquelas barbas ruivas, espessas, verdadeiras, quão diferentes das que envergam os figurantes das produções de "Hollywood") com quem os soldados norte-americanos tentam dialogar e negociar: expressões faciais empedernidas, como que cientes da transitoriedade dos interlocutores, tal como os soviéticos na década de 1980. É essa a principal virtude de um documentário que nos aproxima como nenhum outro das operações no terreno, demasiado longe dos gabinetes climatizados onde são decididas e planeadas. Mas com um grave defeito, no entanto, para além da distorção: a intromissão da câmara de filmar, elemento aniquilador da neutralidade. Não sabemos até que ponto os soldados estão a agir normalmente ou a representar, conscientes da traição das imagens.


["Diary", 2010, Tim Hetherington].

Post-Scriptum: depois de tamanha odisseia no Afeganistão, Hetherington rumou até à Líbia, com o intuito de fotografar os rebeldes em combate na cidade sublevada de Misrata. No passado dia 20 de Abril foi atingido por estilhaços de um morteiro lançado pelas forças militares leais ao coronel Muammar al-Khadafi. Acabou por se esvair em sangue na caixa aberta de uma "pick-up" a caminho da assistência médica. Outro reputado fotojornalista de guerra, Chris Hondros, morreu atingido pela mesma explosão. Duas perdas inestimáveis que urge lamentar. Destaque para dois vídeos deixados por Hetherington e uma entrevista de Junger...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Instantâneo orwelliano


[Assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, 23 de Agosto 1939].

Na perspectiva "ocidental" de Washington D.C. ou Londres, o momento mais preponderante da II Guerra Mundial terá passado pelo "Dia D" (6 de Junho 1944) do desembarque das forças militares Aliadas nas praias da Normandia. Na perspectiva "oriental" de Moscovo terá sido a Batalha de Estalinegrado (1942-43). Foram dois momentos de viragem, nas frentes "ocidental" e "oriental" de uma guerra que estava então a ser ganha pela Alemanha nazista (encabeçando as potências do Eixo). A partir da Normandia e de Estalinegrado, quase que em extremidades opostas do tabuleiro geoestratégico europeu, os Aliados rechaçaram enfim a iniciativa expansionista dos "Panzer" alemães e avançaram até às imediações do "bunker" de Adolf Hitler em Berlim.

A discrepância entre as perspectivas "ocidental" e "oriental" aprofundou-se durante a Guerra Fria, que opôs os outrora Aliados, e nem a Queda do Muro de Berlim (1989) e a dissolução da União Soviética (1991) terão chegado para a dissipar inteiramente. A actual Rússia, principal herdeira do império soviético, faz questão de sublinhar que morreram cerca de 27 milhões de soviéticos na II Guerra Mundial (mais do que qualquer outro país, inclusive a Alemanha, que contabilizou 7,5 milhões de baixas) no sentido de relativizar o papel dos restantes Aliados no derrube de Hitler. Os russos sentem-se injustiçados por uma narrativa histórica de glorificação da perspectiva "ocidental" em detrimento do pungente esforço de guerra do povo soviético.

Ao celebrar o 66º aniversário da "Grande Vitória" na II Guerra Mundial, a 9 de Maio 2011, com uma parada militar na Praça Vermelha, em Moscovo, na qual participaram 20 mil soldados e uma centena de unidades de armamento pesado, a Rússia difunde uma narrativa mais consentânea com a perspectiva "oriental", algo perfeitamente compreensível. Não obstante, importa frisar um episódio histórico que é habilmente apagado dessa narrativa: o Pacto Molotov-Ribbentrop (1939), assinado pelos ministros dos Negócios Estrangeiros soviético (Vyacheslav Molotov) e alemão (Joachim von Ribbentrop), numa altura em que não passaria pela cabeça de Estaline que Hitler viria a cair no mesmo erro que Napoleão Bonaparte cometera em 1812.

Atente-se na fotografia ilustrativa de tão infame acontecimento: aquele sorriso de Estaline, na rectaguarda do enquadramento, sob o retrato oficial do camarada Lenine. Um pacto de "não-agressão" (acrescido de um anexo secreto que estipulava a partição da Europa de Leste e do Norte em "esferas de influência"). Decerto que a Polónia, por exemplo, não partilha da perspectiva "oriental" de Moscovo, apesar (ou por causa) da sua localização geográfica a leste do aeroporto Berlin-Tempelhof (que serviu de base à "ponte aérea" que furou o Bloqueio de Berlim, 1948-49, imposto pelos soviéticos). Aos polacos, acredito, interessaria a difusão de uma outra perspectiva, entalada entre duas máquinas compressoras. A Rússia derrama lágrimas de crocodilo.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Fantasmagoria telúrica


["Meek's Cutoff", 2010, Kelly Reichardt].

Na América (ainda) virginal do pioneirismo carregado de espírito messiânico, violência e ambição, objecto de inspiração para grandes obras cinematográficas que vão beber ao classicismo "western" mas aprofundam muito para além do maniqueísmo entre bons ("cowboys") e maus ("índios"), sem cair no cinismo relativista tão em voga nestes tempos de pós-modernismo exacerbado. Como a mistura explosiva de petróleo e religião em "There Will Be Blood" (2007), adaptação de Upton Sinclair, por Paul Thomas Anderson. Ou um outro género de prospecção do subsolo, mais ontológico, em "Days of Heaven" (1978) de Terrence Malick. Ainda que separados por três décadas, são filmes que provêm de um mesmo filão mineral, tal como a mais recente obra de Kelly Reichardt. Ligação umbilical comprovada através das respectivas bandas sonoras, compostas por Jonny Greenwood (Anderson), Ennio Morricone (Malick) e Jeff Grace (Reichardt). Breves e sublimes trechos de música telúrica - plena de ansiedade, mistério, assombração - que faz revolver as entranhas...

sábado, 14 de maio de 2011

Mitologias disruptivas

A fulgurante ascensão dos EUA de colónia a superpotência (ler a crónica de George C. Herring) em menos de dois séculos leva a desconsiderar, interna e externamente, toda uma dialéctica tradicionalista da política externa norte-americana. «The position of the United States in world politics has changed strikingly from generation to generation and even decade to decade, and this naturally tends to obscure the underlying continuities in our diplomatic tradition and cause each generation to feel that it is meeting historical tests for the first time», salienta Walter Russell Mead, no livro que temos vindo a dissecar.

Daí o mito do "isolacionismo virtuoso" que foi difundido nas décadas de 1920-30 no sentido de protelar uma ansiada intervenção dos EUA num cenário que Mead descreve como «the depressing spectacle of European scorpions grappling in their bottle», ou seja, as agruras do equilíbrio de poder. Finda a II Guerra Mundial emergiu um outro mito, por sua vez associado à Guerra Fria e baseado no imperativo categórico de travar o expansionismo da ideologia comunista. Mistura de factos, interpretação e ficção, ambos os mitos sugeriram leituras quase que antagónicas de elementos fundamentais da cultura política norte-americana, tais como o "Farewell Address" (1796) de George Washington ou a Doutrina Monroe (1823).

A desconsideração pelo contexto histórico, ignorando as linhas de continuidade estratégica, sob o primado dos interesses imediatos (e respectivas narrativas "excepcionalistas"), abre o caminho ao que Mead classifica como "Continental realism" - perspectiva que padece de um "anacronismo conceptual", fruto da sua origem europeia, distorcendo a realidade e inviabilizando uma compreensão mais aprofundada da política externa norte-americana. «Paradoxically, even as the United States moved to defeat the latest and most dangerous of the Continental realist empires, and even as Western Europe and Japan saw their fortunes improve as they adopted elements of traditional American foreign policy, the foreign policy ideas of the Soviet Union, Wilhelmine Prussia, and Metternich's Austria would rise to power in the United States.»

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Teoria do eterno retorno


["Le Quattro Volte", 2010, Michelangelo Frammartino].

Há vida depois de Deus, embebida em positivismo pós-moderno, não sem se debater a questão sobre como preencher o vazio existencial pós-religioso? Talvez com uma perspectiva holista do universo circundante, segundo a qual tudo estará interligado, via "efeito borboleta", superstição panteísta. O cinema tem sido um poderoso meio de difusão desta alternativa ontológica. Atente-se, por exemplo, na "trilogia da dor" da dupla mexicana Alejandro González Iñárritu & Guillermo Arriaga (entretanto desavindos). Ora, tornou-se moda replicar o modelo de fragmentação narrativa, à Robert Altman, de histórias que se entrecruzam, partindo do caos à superfície para desembocar nas profundezas de uma mensagem (religiosa?) carregada de sentido filosófico e ordem moral. O promissor cineasta italiano Michelangelo Frammartino, por sua vez, opta pela linearidade descontinuada. Em vez das estafadas histórias diagonais apresenta um ciclo unívoco em quatro andamentos: humano (pastor), animal (cabra), vegetal (árvore) e inorgânico (fumo). Entre cada um deles há uma disrupção, ou a emanação do absoluto vislumbrado por Manoel de Oliveira, mas não tarda a surgir um acontecimento de regeneração. Na senda de Jacques Tati, sem recorrer às palavras, Frammartino logra dizer-nos mais e tocar mais fundo do que tantos outros filmes falados, instantaneamente olvidados.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Caleidoscópio histórico


[Geronimo, 1829-1909, à direita, acompanhado por dois filhos e um neto].

É comum dizer-se que os EUA são uma república jovem, cuja história é curta e pouco relevante, sobretudo no período de tempo (alegadamente "isolacionista") anterior ao século XX e respectivos conflitos mundiais com epicentro na Europa. Contudo, sempre que os políticos contemporâneos dão um pontapé numa pedra levantam poeiras históricas com que, decerto, não contariam. Atente-se, por exemplo, no nome de código da operação de liquidação de Osama Bin Laden em Abbottabad, Paquistão. "Geronimo", um antigo líder da tribo "índia" Apache, símbolo de resistência aos "americanos brancos" no século XIX. Bateu-se então com inusitada bravura, chegando a liderar 1500 guerrilheiros, mas acabando por ser capturado com o auxílio de elementos da própria tribo. Anteontem, o actual representante dos Apache exigiu um pedido de desculpas do presidente Barack Obama, acusando-o de "racismo" pela associação de Geronimo ao "genocida e cobarde terrorista" chamado Bin Laden. Os EUA são uma república jovem, cuja história é recheadíssima.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Segurança interna/externa


[Charles Dharapak, p/ "Los Angeles Times"].

Retornando ao texto sobre a duplicidade paquistanesa, há que realçar uma nota importante: a transferência de Leon Panetta da CIA para o Pentágono, prestes a ser nomeado como secretário da Defesa, cabendo então ao general David Petraeus assumir a direcção da CIA. Ou seja, o esbatimento das fronteiras entre segurança interna e externa em todo o seu esplendor pós-9/11. Ironicamente, na mesma semana em que, quase uma década depois, os EUA anunciam a liquidação do auto-proclamado fautor dos atentados. «Yet it was not our sheer military or technological strength that finally finished off Osama Bin Laden on Sunday, but human intelligence, careful preparation and patience», assinala Anne Applebaum, no "The Washington Post".

Eis a janela de oportunidade para que a Administração de Barack Obama possa inverter a estratégia traçada pelo antecessor George W. Bush em reacção ao 9/11. Culminar a "guerra global contra o terrorismo", cujos resultados práticos deixam muito a desejar, e focar-se em objectivos mais realistas e exequíveis, embora não descurando as políticas de prevenção do terrorismo. Começando por fazer um balanço. «It's a good time to reexamine the past decade, to ponder what we've done right and what we might have done better», refere Applebaum. Posto isto, qual será o novo caminho escolhido por Obama? Uma parte substancial da resposta deverá passar pelas abordagens de Panetta e Petraeus às funções de secretário da Defesa e director da CIA.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Janela de oportunidade


[Pete Souza, «Situation Room of the White House», 1º de Maio 2011].

Mais relevante, na minha perspectiva, do que debater se se devem ou não divulgar as fotografias do cadáver de Osama Bin Laden, será indagar sobre as implicações geoestratégicas do assalto a Abbottabad. «His death offers an opportunity to declare an end to the 'war on terror'», sugere Gideon Rachman, nas páginas de opinião do "Financial Times". Não no sentido de descurar as políticas de prevenção - «This is not the same as saying that the US and Europe can now stop worrying about terrorism. The west will need a serious counter-terrorism policy for many years to come», ressalva Rachman -, mas apontando para a iminência de um recuo estratégico em relação à doutrina aplicada por George W. Bush, esgotada, desde há demasiado tempo, pelas chagas afegã e iraquiana. A Administração de Barack Obama poderá agora inverter o caminho trilhado pela política externa dos EUA na sequência da manhã do dia 11 de Setembro de 2001. «Meanwhile, as America poured money and resources into the GWOT, the truly epoch-making changes of our time were taking place in east Asia. The rise of new economic powers such as China and India - and the relative decline of the US - will ultimately shape the next century far more than the terrorist threat. But handling the rise of China and reviving the US economy are difficult and lengthy challenges - offering none of the emotional satisfaction of blowing away 'America's most wanted'», salienta Rachman. Depois de consumir todo um primeiro mandato a tentar resolver os problemas herdados da Administração anterior, é tempo de enterrar os demais fantasmas e enfrentar o futuro, i.e., o mundo pós-americano e a ascensão do resto.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Duplicidade paquistanesa



Na região transfronteiriça entre o Paquistão e o Afeganistão, tal como escrevi aqui ontem, mas demasiado próximo da capital paquistanesa Islamabad, qualquer coisa como 55 quilómetros. O esconderijo de Osama Bin Laden em Abbottabad, por entre terrenos pertencentes a membros do Exército paquistanês, como que confirma aquilo que desde há muito se desconfiava: a conivência das cúpulas militares, se não mesmo do próprio regime. Leon Panetta, director cessante da CIA (prestes a assumir o cargo de secretário de Defesa, ao passo que a chefia da CIA será delegada no general David Petraeus), em entrevista à "Time", assume que as autoridades paquistanesas não foram informadas sobre a operação militar em curso: «U.S. officials feared that Pakistan could have undermined the operation by leaking word to its targets.» Há pelo menos duas ideias fortes a reter. Primeira, a subserviência de Islamabad relativamente a Washington D.C., ao ponto de se permitir uma operação militar estrangeira em pleno território paquistanês, a 55 quilómetros da capital, sem qualquer informação prévia. Segunda, a sofreguidão do regime paquistanês numa tentativa de gestão dos danos causados, recorrendo a justificações pífias e demonstrações de lealdade, dando seguimento ao mais típico jogo duplo (para consumo interno e externo) dos regimes vigentes no Médio Oriente. Resta saber se essa duplicidade continuará a ser tolerada pelos EUA, no rescaldo de tamanha quebra de confiança.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A sombra do guerreiro


["Kagemusha", 1980, Akira Kurosawa].

Os EUA anunciaram hoje a morte de Osama Bin Laden, auto-proclamado fautor dos atentados terroristas perpetrados no dia 11 de Setembro de 2001 - em Nova Iorque, Washington D.C. e Pensilvânia. É de uma execução sumária que se trata, na sequência de mais uma operação secreta na região transfronteiriça entre o Paquistão e o Afeganistão (desde há muito tempo que era apontada como a mais provável localização do esconderijo de Bin Laden, após a lendária fuga das grutas de Tora Bora). E não tardaram a pulular as teorias da conspiração em torno do cadáver "desaparecido" - a imaginação é o limite! Se acusam os EUA de terem auto-infligido os atentados terroristas de 2001, se duvidam da autenticidade das transmissões televisivas a partir da Lua em 1969 e se juram que Elvis Presley está vivo e recomenda-se, por que raio é que haveriam de acreditar na morte de Bin Laden, quando nem sequer há um desfile fúnebre que se possa apreciar?

Quanto às teorias da conspiração, não quero perder muito tempo, lançando apenas duas questões: se bastava uma montagem no "Photoshop", porquê só agora, quase 10 anos depois? E se é tudo fabricado, porque é que Bin Laden não reaparece a dizer olá na Al-Jazeera? Minudências, meras minudências que não se coadunam com a narrativa proto-conspiracional. Posto isto, afigura-se-me bastante mais importante reflectir sobre se o desaparecimento de Bin Laden significa ou não o fim das actividades terroristas da Al-Qaeda. Inclino-me para uma resposta negativa, na medida em que o planeamento operacional da rede terrorista há muito que terá sido delegado noutras células, restando a Bin Laden o papel de símbolo unificador da organização. E tal como a heróica sobrevivência contra todas as investidas dos todo-poderosos EUA servia de estímulo interno e motor de recrutamento externo, também a morte, que o torna mártir, poderá ser utilizada nesse sentido, garantindo a subsistência do vírus. Os tempos são outros que não os do Japão medieval, mas não posso deixar de traçar uma analogia com a "sombra do guerreiro" de Akira Kurosawa. Basta uma alegoria que mimetize o poder destruidor do defunto senhor da guerra para assegurar a continuidade do terror.

domingo, 1 de maio de 2011

A leveza dos emergentes


[Vik Muniz, n. 1961, São Paulo].

Nas páginas do "Ípsilon" (edição 29 de Maio 2011) deparei-me com um notável contraste ontológico, quase que do tamanho do Oceano Atlântico. Na margem de cá, Portugal, temos Pedro Mexia a recordar a idade em que levava as coisas demasiado a sério. «Era tudo muito pesado», confessa, entrevistado a despropósito da edição de uma sua compilação de poemas. Leio-o regularmente e não me parece que tenha mudado assim tanto, por debaixo da fina camada de "ironia" e "sentido de humor" que, garante, terá atenuado a cadência melancólica (congénita?). Na margem de lá, Brasil, temos Vik Muniz (artista plástico nascido em São Paulo mas desde há muito radicado em Nova Iorque) num despudorado exercício de auto-elogio e auto-promoção que dá pelo título de "Waste Land" (2010), documentário realizado por Lucy Walker (não sem o auxílio de Karen Harley e João Jardim) e nomeado para os Oscars'2011 - na categoria de "melhor documentário", cujo vencedor acabou por ser "Inside Job" (2010), de Charles Ferguson. Ora, se para Mexia é tudo muito pesado, para Muniz é tudo muito leve, inclusive o Jardim Gramacho, arredores do Rio de Janeiro, onde se encontra o maior aterro sanitário da América Latina, crivado de "catadores" que sobrevivem literalmente do lixo que vão remexendo, recolhendo e separando, diariamente, lutando contra a indigência (congénita?). O sorriso aberto e descomplexado de Muniz enquanto escolhe umas quantas "personagens" para retratar, utilizando materiais à base do lixo (serialismo de marca), é algo de impressionante. E o momento mais interessante do filme consiste, talvez, no debate de ideias entre Muniz e a respectiva esposa, que alerta para o dilema moral de expor ou não os "catadores" retratados perante um patamar social ao qual nunca acederam e dificilmente acederão. Em Muniz, até pelas suas origens humildes, não há complexo de culpa. Mais vale um dia apenas do que nunca. E 99 não são 100, parafraseando Valter. Eis o que dista entre as duas margens do Atlântico.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Anacronismo conceptual


[Walter Russell Mead, n. 1952, Columbia].

Na perspectiva de Walter Russell Mead (retomando dois textos anteriores), há como que uma densa névoa de preconceitos ideológicos e desconhecimentos históricos em torno da política externa norte-americana que turvam a percepção geral, ao ponto de lhe serem apontados defeitos incompatíveis: «That American foreign policy is too naive, too calculating, too openhanded, too violent, too isolationist, too universalist, too unilateral, too multilateral, too moralistic, too immoral.» Não raras vezes, os EUA são criticados por intervirem e por não intervirem, por o fazerem a expensas próprias e também por o fazerem com o auxílio de eventuais aliados, entre outros paradoxos (difundidos tanto externa como internamente).

A maior parte dessas críticas enferma de uma espécie de anacronismo conceptual: «A surprising number of people today still share a set of conventional views about what foreign policy should be and how it should work that have little to do with the contemporary world. This strangely fossilized conventional wisdom is not just Eurocentric; it is what can be called Continentalist», destrinça Mead. «That is, the conventional wisdom does not simply assume that the foreign policy experience and practices of European states in their heyday define what international life 'really' is; it focuses only on the approaches and ideas emanating from the Continental powers of nineteenth-century Europe (especially Prussia, France and Austria) and ignores the many distinctive features that marked the foreign policy experience of Britain during that century and the United States today.» É o que Mead designa por "Continental realism", corrente de pensamento com grande influência nos EUA, apesar de assentar em pressupostos errados que distorcem a realidade.

Mead aponta "três áreas principais" em que a perspectiva inerente ao "Continental realism" inviabiliza uma compreensão aprofundada da política externa dos EUA: dimensão económica, escala geográfica e natureza política. Primeiro, a concepção da política externa como um instrumento exclusivamente político, na senda de estadistas europeus como Metternich e Bismarck, em contraste com a tradição anglo-americana que não descura os interesses económicos: «It is the economic success that creates the financial basis for national power.» Segundo, a incapacidade de interpretar o mundo a partir de outros centros de poder para além do velho continente europeu. «Continental realists are Eurocentric, and see the European continent as the main theater of world politics.» Terceiro, a ignorância sobre a natureza democrática da política externa norte-americana, com graduações ideológicas, regionais, entre outras. Multiplicidade de vozes e influências a ter em conta. «That American foreign policy is rarely the product of a single, deliberative mastermind only begins to delineate the difference between the American article and the European ideal.»

Para os observadores regidos pelo "Continental realism" trata-se de uma fraqueza, a natureza democrática da política externa dos EUA. Ora, a coexistência competitiva entre as diferentes interpretações (por vezes antagónicas) dos interesses nacionais norte-americanos, no âmago do processo de decisão política, tende a causar perplexidade entre os arautos da tradição europeia, dita "consensual": «There is an almost universal feeling among European governments that foreign policy should be, as far as possible, insulated from the turmoil of democratic politics.» Mais do que um solo presidencial, é uma sinfonia de valores conflituantes que implicam uma escolha agónica (ler Isaiah Berlin). «It often seems that this chaotic condition cannot be the basis for sound, long-term policy. But history teaches something different», sublinha Mead.